“Deus amou tanto o mundo!”

Frei Raniero Cantalamessa tece com maestria os comentários sobre o amor de um Deus que se doou inteiramente em uma cruz por amor a mim e a você. Vale a pena, inclusive rezar com este texto... Luiz Antônio.

  “Deus amou tanto o mundo!”

Em estilo enxuto, desprovido de qualquer comentário teológico ou edificante, as narrativas da Paixão-especialmente as dos sinóticos nos transportam aos primórdios da Igreja. São as primeiras partes do Evangelho que se “formaram” (para usar a linguagem do moderno “método das formas”) na tradição oral e circularam entre os cristãos. Nesta fase predominam os fatos; tudo se resume em dois eventos: morreu-ressuscitou. Mas a fase dos simples fatos bem depressa foi ultrapassada. Logo os fiéis interrogaram-se acerca do “por que” de tais fatos, ou seja, da Paixão: por que sofreu Deus? A resposta foi: “Por nossos pecados!” Assim nasceu a fé pascal, expressa na famosa frase de S. Paulo: “Cristo morreu por nossos pecados; ressuscitou para a nossa justificação” (cf. ICor 15,3-4; Rm 4,25). Doravante dispunha-se dos fatos- morreu, ressuscitou- e do seu significado para nós: por nossos pecados, para nossa justificação. A resposta parecia completa: a história e a fé formavam finalmente um único mistério pascal.

Contudo, ainda não se alcançara o fundo real do problema. A questão volvia sobre uma outra forma: Por que morreu ele por nossos pecados? A resposta que iluminou de vez a fé da Igreja qual fulguração de sol foi: “Por que nos amava!” “Ele nos amou e por isso entregou-se a si mesmo por nós” (Ef 5,2); “Amou-me e por isso entregou-se por mim” (Gl 2,20); “Ele amou a Igreja e por isso entregou-se por ela” (Ef 5,25). Como se vê, trata-se de uma verdade pacífica, primordial, que tudo penetra e se aplica tanto a
Igreja em conjunto como a cada homem em particular. O evangelista São João, que escreve depois dos outros, faz remontar esta revelação ao próprio Jesus terreno: “Ninguém - diz Jesus no evangelho de João- tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos. Vós sois meus amigos”. (Jo 15,13s).

Esta resposta ao “porque” da Paixão de Cristo é realmente definitiva e não admite ulteriores perguntas.

Amou-nos por que nos amou e basta! Com efeito, o amor de Deus não admite um “porque”, é gratuito. O único amor do mundo verdadeira e totalmente gratuito, que não pede nada para si (já tem tudo!), mas somente dá, ou melhor, dá-se a si mesmo.

“Nisto consiste o amor: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi Ele que nos amou... Ele nos amou primeiro!” (IJo 4,10. 19).

Deste modo, Jesus sofreu e morreu livremente, por amor. Não por acaso, não por necessidade, não devido a forças escusas ou razões históricas que o arrastam sem que se desse conta, ou melhor, a contragosto. Quem tal coisa afirmasse esvaziaria o evangelho; suprimir-lhe-ia a alma. Por que o evangelho nada mais é do que isto, a alegre mensagem do amor de Deus em Cristo Jesus. Não só o Evangelho, mas toda a Bíblia nada mais é do que é do que isso: o anúncio do amor misericordioso, incompreensível de Deus pelo homem. Se toda a Escritura se pusesse a falar, se, por um prodígio qualquer, se transformasse de palavra escrita em palavra pronunciada a uma voz, mais poderosa do que as ondas do mar, clamaria: “Deus nos ama!”

O amor de Deus pelo homem mergulha as raízes na eternidade (“Ele nos escolheu antes da criação do mundo”, diz o Apóstolo em Ef 1,4), mas se manifestou no tempo, numa série de gestos concretos que integram a história da salvação. Deus já falara aos pais deste seu amor nos tempos de outrora, muitas vezes e de diversos modos (cf. Hb 1,1). Falara criando-nos, pois o que é a criação senão um ato de amor, o ato inicial do amor de Deus pelo homem (“Deste origem ao universo para efundir o teu amor sobre todas as criaturas”, dizemos na Oração Eucarística IV). Depois falara por meio dos profetas, por que os profetas, nada mais são, na realidade, do que mensageiros do amor de Deus, “amigos do Esposo”. Mesmo quando reprovam e ameaçam, fazem-no para propugnar este amor de Deus por seu povo. Nos profetas, Deus compara o seu amor ao de uma mãe (Is 49,15s), ao de um pai (Os 11,4), ao de um esposo (Is 62,5). O próprio Deus resume numa frase o seu modo de proceder para com Israel dizendo: “Com amor eterno eu te amei!” (Jr 31,3). Afirmação jamais ouvida, em filosofia alguma em nenhuma religião, na boca de um Deus! O “deus dos filósofos” é um Deus que deve ser amado, não um Deus que ama e que ama por primeiro.

Mas não bastou a Deus falar-nos do seu amor “por meio dos profetas”. “Ultimamente, nestes dias, falou-nos por meio do seu Filho” (Hb 1,2). Enorme é a diferença relativamente ao anterior: Jesus não se limita a falar-nos do amor de Deus, como faziam os profetas: Ele “é” o amor de Deus. Pois “Deus é amor” e Jesus é Deus!

  

Comentarios(2)

Comentarios

Nome:nilva
que deus de forca a todos para todas as tribulacoes passarem
Data:04/08/2010

Responder

Nome:ivanice de jesus santos
que deus abensoi voces todos
Data:31/07/2010

Responder